Exposição A Leveza Pode Ser o Peso da Nossa História

Texto crítico: Loly Demercian
A Leveza Pode Ser o Peso da Nossa História, 2024
Artistas: Nádia Starikoff e Gaya Rachel
Texto: Loly Demercian

“Antes de formar sua atmosfera e seus oceanos, a Terra devia ter o aspecto de uma bola cinzenta a rolar pelo espaço. Igual ao que é hoje a Lua: ali onde os raios ultravioletas irradiados pelo sol chegam em anteparos, as cores se destroem: por isso, as rochas da superfície lunar, embora coloridas como as da terra, são de um cinza morto e uniforme. Se a Terra apresenta uma face multicor é graças à atmosfera, que filtra aquela luz mortífera”.

                                                                            Ítalo Calvino 1

A exposição “A Leveza Pode Ser o Peso da Nossa História” reúne, de maneira sensível e instigante, os trabalhos de duas talentosas artistas, Nádia Starikoff e Gaya Rachel, cujas pinturas exploram as tensões entre o leve e o pesado, o visível e o oculto, o efêmero e o permanente. Esta mostra não é apenas uma exposição de arte, mas uma imersão profunda nas camadas da memória e da identidade, sugerindo que, frequentemente, o que parece leve carrega consigo um peso histórico inestimável. As duas artistas que compartilham este espaço expositivo tecem, com sensibilidade e sagacidade, um rico tapete de significados que nos desafiam a reconsiderar a nossa compreensão do passado e sua influência sobre o presente.

Ao entrar no espaço expositivo, somos imediatamente envolvidos por uma atmosfera que flutua entre a delicadeza e a densidade. As obras dialogam entre si, criando uma narrativa visual que questiona nossas percepções e desafia nossas suposições. As artistas, com suas técnicas singulares, conseguem traçar paralelos e contrapontos, oferecendo ao espectador uma experiência rica e multifacetada.

A artista Nádia Starikoff utiliza uma paleta de cores suaves, como o azul metileno, que por acaso é um corante utilizado em histologia para colorir as células do nosso corpo, porque não apresentam cor. As cores são para materializar, para tornar visível o invisível.  Na série “leveza” evoca uma sensação de serenidade, seus trabalhos, no entanto, são pontuados por elementos que remetem a memórias pessoais, como fragmentos de imagens e flores. Essa justaposição cria uma tensão visual e emocional, sugerindo que a aparente suavidade da superfície esconde histórias de peso considerável. Suas pinturas são quase como poemas visuais, onde cada camada de tinta revela uma nova nuance de significado.

Em contraste, a outra artista, Gaya Rachel, opta por cores mais vibrantes e contrastantes, com pinceladas enérgicas que conferem movimento e intensidade às suas obras. As cenas representadas, embora dinâmicas e cheias de vida, carregam uma carga emocional profunda. Elementos simbólicos emergem das camadas de tinta, contando histórias de resistência, luta e resiliência. Através de uma abordagem quase abstratas, nos convida a refletir sobre como o peso da história se manifesta no presente, influenciando e moldando nossas experiências cotidianas. Os símbolos, segundo a artista estão entre célula e o universo.

O espectador é levado a percorrer um caminho onde cada obra é um ponto de reflexão, um convite a considerar as múltiplas camadas de nossa existência histórica e cultural. “A Leveza Pode Ser o Peso da Nossa História” é uma exposição que desafia o espectador a olhar além da superfície, a reconhecer a complexidade inerente às experiências humanas. As artistas, com suas abordagens únicas, nos mostram que a história não é apenas um fardo a ser carregado, mas também uma fonte de força e inspiração. Esta mostra é uma celebração da resiliência humana e da capacidade de transformar o peso do passado em uma leveza que nos permite seguir adiante. Em última análise, esta exposição é um tributo à dualidade da vida, uma ode à delicadeza que coexiste com a profundidade, e um lembrete de que a leveza pode, de fato, ser o peso da nossa história.

A união destas duas artistas em “A Leveza Pode Ser o Peso da Nossa História” não é apenas uma justaposição de estilos, mas uma sinergia que amplia a compreensão do espectador sobre a complexidade da história e sua influência contínua. A leveza, neste contexto, não é sinônimo de superficialidade ou ausência de peso, mas uma qualidade que permite uma nova perspectiva sobre o que pode parecer imutável e pesado. Ao caminhar por esta exposição, somos desafiados a reavaliar nossa relação com o passado. As obras nos encorajam a reconhecer a beleza e a dor das narrativas históricas, a entender que a leveza pode ser um véu que encobre um profundo peso e que este peso, por sua vez, pode ser portador de uma estranha e necessária leveza. A exposição nos deixa com uma sensação de reverência e introspecção, instigando um diálogo contínuo sobre como carregamos e interpretamos a nossa história. Em “A Leveza Pode Ser o Peso da Nossa História”, as artistas nos oferecem uma meditação visual sobre a natureza paradoxal da memória e do tempo, um convite para explorar a intrincada dança entre o que é visto e o que é sentido, entre a aparente leveza e o inescapável peso das nossas narrativas compartilhadas.

1-Calvino, Italo. AS COSMICÔMICAS. São Paulo. Companhia das letras, 1992. Pg.51

Exposição Paisagens Ásperas

PAISAGENS ÁSPERAS, 2024

Vitor Mazon¹

Em suas tradições familiares, Vitor Mazon descobriu uma atmosfera propícia para criação, uma percepção diferenciada em relação a marcenaria, fruto do ofício familiar. Era normal esbarrar com sobras de materiais como madeira, pregos, parafusos, lixas de todas as cores e espessuras. Entretanto, Vitor iniciou seu trabalho artístico com o dispositivo fotográfico. Seu olhar o direcionava para os vazios entre a presença das árvores e mata. As imagens, ao serem reveladas, fizeram-no sentir que algo faltara. Era aquele ambiente conhecido da marcenaria: o cheiro de madeira, o tato, a tridimensionalidade. Era preciso inserir toda essa lembrança de alguma forma. Vitor, então, compôs à fotografia, colagens, que evocaram a profundidade – com restos de madeira – e a moldura feita com suas próprias mãos. Suas primeiras paisagens, se originaram da lixa, um instrumento comum, mas com enorme capacidade de mutação, quando aliada a uma mente criativa, capaz de perceber as tensões advindas de sobreposições do material.
Em suas exposições, Vítor procura situar a multiplicidade da linguagem artística projetada naqueles materiais e suportes. São várias técnicas executadas com fluidez. Passa-se de uma para a outra sem detrimento da qualidade e sem que a técnica sobrepuja a linguagem e vice-versa. Mas, Vitor, não satisfeito, inicia pesquisa subjacente a todo pensamento expressado nas diversas séries, trazendo um fato raro na arte hodierna, na qual as formas prontas são apropriadas sem que haja indagação alguma quanto ao procedimento. A surpresa nessa descoberta logo é desvelada, uma vez que o artista realizou inúmeras pesquisas sobre as tensões lineares percebidas nas sobreposições de lixas que compõem cores e formas. Com as marcas de dedos, como se fosse a memória desenhando veios nas madeiras ásperas e lixadas, a linguagem de Vítor se articula. A partir daí, o artista cria paisagens com uma “atmosfera” que não se refere ao insólito, nem à junção ao acaso de elementos díspares, mas àquilo que resulta da reflexão e da experiência criadora de leis da causalidade.
Buscando domínio e boa execução técnica, Vítor deixa seu rigor na unidade e na identidade construída.

Loly Demercian²

¹Vitor Mazon, 1987, vive e trabalha em São Paulo – SP. Sua pesquisa parte da fotografia de paisagem, buscando uma relação entre imagem e matéria. Filho e neto de marceneiros, se formou em jornalismo (2010), com especialização em fotojornalismo pela Spéos Paris – École de Photographie, Paris (2012).
Em 2022 fez sua primeira exposição individual, Sarrafo, na galeria Zipper, com curadoria de Eder Chiodetto. Entre as exposições coletivas de que participou estão: Poéticas Possíveis, Paralela Eixo (2021), Voices of Earth, Art from the Heart (2021), Mostra Museu, Arte na Quarentena (2021).

²Especialista em Estudos de Museus de Arte pelo programa Inter unidades do Museu de Arte Contemporânea do estado de são Paulo, da Universidade de São Paulo (MAC/USP); mestre em Educação, arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; curadora de arte e membro do grupo de pesquisa em Comunicação e Criação nas mídias (CCM) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Exposição NONADA

Em NONADA, o artista Rodrigo Gontijo apresenta objetos, fotografias, instalação e vídeo desenvolvidos a partir de uma viagem pelo sertão mineiro que teve o livro “Grande Sertão: Veredas” de João Guimarães Rosa como um mapa afetivo.

“O neologismo nonada, criado por Guimarães Rosa no livro Grande Sertão: Veredas, pode ser entendido de duas formas, uma dupla negativa e uma referência de localização. Tomando a liberdade de estender a dicção roseana, supondo que a própria prática do autor de estender dicções seja uma autorização para isso, este segundo sentido ajuda a explicar a exposição de Rodrigo Gontijo com título Nonada. São duas salas com videoinstalações, impressões digitais e fotografias. O trânsito por diferentes linguagens dialoga com o trânsito pelo sertão que alimenta o imaginário da exposição.” Por Marcus Bastos – professor da PUC-SP

Casagaleria Convida: Exposição

A poética de Marcos Rodolfo Schmidt

Fui convidado por Marta Schmidt para visitar o acervo que abriga as obras do artista visual Marcos Rodolfo Schmidt, por ela mantido em Alfenas, cidade do sul de Minas Gerais.
A partir do desejo de Marta de reencaminhar a obra de seu irmão ao circuito de arte, elaborei um plano de trabalho que resultou em um primeiro dossiê, a partir do qual realizei um ensaio crítico e a curadoria desta exposição.
Foi a primeira vez que organizei um acervo sem a presença de seu respectivo artista, fato que exigiu uma leitura minuciosa de cada obra. Essa organização ocorreu sob uma perspectiva sincrônica, quando aproximações entre obras − produzidas em períodos distintos − passaram a formar campos de força, que não denotam um passado ou um futuro, mas um presente.
Marcos Rodolfo Schmidt nasceu em 18 de maio de 1943, no município de Santos (SP), e faleceu em São Paulo, em 29 de outubro de 2006.
Sua formação acadêmica, realizada integralmente na cidade de São Paulo, compreende a graduação em Educação Artística pela Faculdade de Belas Artes; os cursos de Desenho, Pintura e História da Arte pela Fundação Armando Alvares Penteado; e a graduação em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
A obra de Marcos começa a ser exposta nos anos 1960, sob reverberações do Concretismo e do Neoconcretismo, movimentos brasileiros vinculados às tendências construtivas internacionais, e de produções que envolveram novos conceitos de figuração, expostas em importantes mostras como Opinião 65 e Nova Objetividade Brasileira.
Desde a sua participação no Salão Novos Valores, evento da X Bienal Internacional de Arte de São Paulo, um diálogo crítico com as questões postas pelas tendências construtivas foi estabelecido por Marcos Rodolfo Schmidt.
No percurso de Marcos, uma substantividade, norteadora de suas operações de cortes e dobras, encontra-se presente em obras dos anos 1960/1970. Os materiais escolhidos para essas operações – metal, feltro e papel − funcionam como 2 sujeitos do discurso, ou seja, as qualidades próprias de suas naturezas não são omitidas.
Essas operações de cortes e dobras foram atualizadas em obras cromáticas das décadas seguintes, a partir de sequências geométricas efetuadas sobre telas
superpostas, e da integração das qualidades de espaços arquitetônicos aos seus discursos.
Esta exposição representa um primeiro recorte da obra de Marcos Rodolfo Schmidt, a partir do qual é possível perceber sua dedicação às questões presentes nos desdobramentos das vertentes construtivas na contemporaneidade.
Ronaldo Auad Moreira